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03 junho 2008

Se- Poema traduzido de Rudyard Kipling


If (Rudyard Kipling)

If you can keep your head when all about you
Are losing theirs and blaming it on you,
If you can trust yourself when all men doubt you,
But make allowance for their doubting too;
If you can wait and not be tired by waiting,
Or being lied about, don't deal in lies,
Or being hated, don't give way to hating,
And yet don't look too good, nor talk too wise:

If you can dream - and not make dreams your master,
If you can think - and not make thoughts your aim;
If you can meet with Triumph and Disaster
And treat those two impostors just the same;
If you can bear to hear the truth you've spoken
Twisted by knaves to make a trap for fools,
Or watch the things you gave your life to, broken,
And stoop and build 'em up with worn-out tools:

If you can make one heap of all your winnings
And risk it all on one turn of pitch-and-toss,
And lose, and start again at your beginnings
And never breath a word about your loss;
If you can force your heart and nerve and sinew
To serve your turn long after they are gone,
And so hold on when there is nothing in you
Except the Will which says to them: "Hold on!"

If you can talk with crowds and keep your virtue,
Or walk with kings - nor lose the common touch,
If neither foes nor loving friends can hurt you,
If all men count with you, but none too much;
If you can fill the unforgiving minute
With sixty seconds' worth of distance run,
Yours is the Earth and everything that's in it,
And - which is more - you'll be a Man, my son!






Se (Rudyard Kipling - tradução Filippo Pardini)

Se és capaz de manter a calma quando todos ao teu redor
a estão perdendo e te culpando por isso,
Se és capaz de acreditar em ti quando todos duvidam,
dando o devido crédito às suas dúvidas;
Se és capaz de esperar sem te desesperares,
ou enganado, não passar a mentir,
ou sendo odiado, não dar vazão ao ódio,
e mesmo assim não parecer bom demais, nem pretensioso:

Se és capaz de sonhar sem que teus sonhos te escravizem,
Se és capaz de pensar sem fazer dos teus pensamentos a única meta;
Se és capaz de encontrar o triunfo e a desgraça
e tratar da mesma forma esses dois impostores;
Se és capaz de suportar ouvir as verdades que disseste
torcidas e transformadas em armadilhas para tolos,
ou ver as coisas pelas quais deste a vida, estraçalhadas,
e te esforçar para reconstruí-las com as ferramentas gastas que te restam:

Se és capaz de juntar tudo que ganhaste em tua vida
e arriscar tudo isso de uma única vez,
e perder, e recomeçar tudo novamente
e apesar disso jamais dizer uma única palavra sobre a tua perda;
Se és capaz de forçar coração, nervos e tendões
até que não agüentem mais,
e mesmo assim ir em frente mesmo quando não sobrar nada em ti
a não ser a consciência que lhes impõe "agüentem firme!"

Se és capaz de falar com o povo mantendo teus princípios éticos,
ou no meio de reis não perder a naturalidade,
Se és imune a inimigos pessoais e a grandes amigos,
Se a todos podes ser de apoio sem exageros;
Se és capaz de preencher o minuto fatal
com sessenta segundos de grande valor,
Tua é a terra e tudo que há nela,
e - o que mais importa - tu és um Homem, meu filho!

14 abril 2008

Fanatismo - Fagner -composição de Florbela Espanca


Minh'alma de sonhar-te, anda perdida
Meus olhos andam cegos de te ver
Não és sequer a razão do meu viver
Posto que és já toda minha vida
Não vejo nada assim, enlouquecida,
Passo no mundo meu amor a ler
No misterioso livro do teu ser,
A mesma história, tantas vezes lida
Tudo no mundo é frágil, tudo passa...
Quando me dizem isto, toda a graça
De uma boca divina, fala em mim
E olhos postos em ti, sigo de rastros:
"Podem voar mundos, morrer astros
Que tu és como um deus, princípio e fim."

Eu já te falei de tudo, mas tudo isso é pouco,
diante do que sinto.

25 março 2008

O Homem Trocado - Luís Fernando Veríssimo


O homem acorda da anestesia e olha em volta. Ainda está na sala de
recuperação. Há uma enfermeira do seu lado. Ele pergunta se foi tudo bem.
- Tudo perfeito - diz a enfermeira, sorrindo.
- Eu estava com medo desta operação...
- Por quê? Não havia risco nenhum.
- Comigo, sempre há risco. Minha vida tem sido uma série de enganos...
E conta que os enganos começaram com seu nascimento. Houve uma troca
de bebês no berçário e ele foi criado até os dez anos por um casal de
orientais, que nunca entenderam o fato de terem um filho claro com olhos
redondos. Descoberto o erro, ele fora viver com seus verdadeiros pais. Ou
com sua verdadeira mãe, pois o pai abandonara a mulher depois que esta não
soubera explicar o nascimento de um bebê chinês.
- E o meu nome? Outro engano.
- Seu nome não é Lírio?
- Era para ser Lauro. Se enganaram no cartório e...
Os enganos se sucediam. Na escola, vivia recebendo castigo pelo que não
fazia. Fizera o vestibular com sucesso, mas não conseguira entrar na
universidade. O computador se enganara, seu nome não apareceu na lista.
- Há anos que a minha conta do telefone vem com cifras incríveis. No mês
passado tive que pagar mais de R$ 3 mil.
- O senhor não faz chamadas interurbanas?
- Eu não tenho telefone!
Conhecera sua mulher por engano. Ela o confundira com outro. Não foram
felizes.
- Por quê?
- Ela me enganava.
Fora preso por engano. Várias vezes. Recebia intimações para pagar dívidas
que não fazia. Até tivera uma breve, louca alegria, quando ouvira o médico
dizer:
- O senhor está desenganado.
Mas também fora um engano do médico. Não era tão grave assim. Uma
simples apendicite.
- Se você diz que a operação foi bem...
A enfermeira parou de sorrir.
- Apendicite? - perguntou, hesitante.
- É. A operação era para tirar o apêndice.
- Não era para trocar de sexo?
Luis Fernando Veríssimo

Poesia felicidade = Fernando Pessoa


Como é por dentro outra pessoa
Quem é que o saberá sonhar?
A alma de outrem é outro universo
Com que não há comunicação possível,
Com que não há verdadeiro entendimento.

Nada sabemos da alma
Senão da nossa;
As dos outros são olhares,
São gestos, são palavras,
Com a suposição de qualquer semelhança
No fundo.
Fernando Pessoa

Poemas de Amor - Flor Bela De Alma Da Conceição


Flor Bela de Alma da Conceição nasceu em Vila Viçosa a 8 de Dezembro de 1894.
Na Escola Primária adoptou o nome Flor d’Alma da Conceição Espanca. Completou o 11º ano do Curso Complementar de Letras e ingressou na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa.


A sua obra compreende sonetos e outras composições vibrantes, imbuídas de paixão, dor, melancolia, alegria, consoante o seu próprio estado de alma, tantas vezes atormentado pelo luto e pela solidão.

Florbela Espanca deixou-nos um legado literário considerável, de escrita apaixonada que vale a pena conhecer, reler e partilhar.

Minh’alma, de sonhar-te, anda perdida

Meus olhos andam cegos de te ver!

Não és sequer razão do meu viver,

Pois que tu és já toda a minha vida!




E as lágrimas que choro, branca e calma,
Ninguém as vê brotar dentro da alma!
Ninguém as vê cair dentro de mim!


E é amar-te, assim, perdidamente...
É seres alma e sangue e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!




Meu amor, meu Amado, vê... repara:
Pousa os teus lindos olhos de oiro em mim,
- Dos meus beijos de amor Deus fez-me avara
Para nunca os contares ate ao fim

fONTE: livros e outras coisas

05 março 2008

Lembrando Leminski- Campo de Sucatas


Saudade do futuro que não houve

Aquele que ia ser nobre e pobre

Como é que tudo aquilo pôde

Virar esse presente podre

E esse desespero em lata?


Trecho do livro Ex-estranho (1996) de Paulo Leminski. Neste livro tem um pequeno texto introdutório:

"Este livro ... expressa, na maior parte de seus poemas, uma vivência de despaisamento, o desconforto do not-belonging, o mal-estar do fora-de-foco, os mais modernos dos sentimentos".

23 fevereiro 2008

Soneto da Fidelidade - Vinicius de Moraes


SONETO DE FIDELIDADE
De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Que vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.

Estoril, outubro, 1939

22 fevereiro 2008

Data e Dedicatória - Mário Quintana


Data e Dedicatória (Mário Quintana)

Teus poemas, não os dates nunca... Um poema
Não pertence ao Tempo... Em seu país estranho,
Se existe hora, é sempre a hora estrema
Quando o anjo Azrael nos estende ao sedento
Lábio o cálice inextinguível...
Um poema é de sempre, Poeta:
O que tu fazes hoje é o mesmo poema
Que fizeste em menino,
É o mesmo que,
Depois que tu te fores,
Alguém lerá baixinho e comovidamente,
A vivê-lo de novo...
A esse alguém,
Que talvez ainda nem tenha nascido,
Dedica, pois, os teus poemas.
Não os dates, porém:
As almas não entendem disso...

Mãe - Mário Quintana


Mãe (Mário Quintana)

Mãe... São três letras apenas
As desse nome bendito:
Também o Céu tem três letras...
E nelas cabe o infinito.
Para louvar nossa mãe,
Todo o bem que se disse
Nunca há de ser tão grande
Como o bem que ela nos quer...
Palavra tão pequenina,
Bem sabem os lábios meus
Que és do tamanho do Céu
E apenas menor que Deus!

Ao Coração que Sofre - Olavo Bilac




Ao Coração Que Sofre

Ao coração que sofre, separado
Do teu, no exílio em que a chorar me vejo,
Não basta o afeto simples e sagrado
Com que das desventuras me protejo.
Não me basta saber que sou amado,
Nem só desejo o teu amor: desejo
Ter nos braços teu corpo delicado,
Ter na boca a doçura de teu beijo.
E as justas ambições que me consomem
Não me envergonham: pois maior baixeza
Não há que a terra pelo céu trocar;
E mais eleva o coração de um homem
Ser de homem sempre e, na maior pureza,
Ficar na terra e humanamente amar.